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"A minha arma é a literatura": Professor usa a leitura como ferramenta de mobilização social em São Paulo

  • 5 hours ago
  • 3 min read

Em entrevista, o historiador e militante sindical Sérgio Pereira reflete sobre o papel transformador da arte, o esvaziamento político dos espaços públicos e convoca a população para atos em defesa da igualdade racial.

Por Elder Oliveira

A literatura vai muito além das rimas e métricas engessadas: ela é o reflexo da sociedade e um motor para a mudança. É com essa convicção que Sérgio Pereira, professor de história e militante do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP), pauta a sua vida e a sua atuação política.

Filho de uma trabalhadora rural e de um funcionário público, Sérgio conta que o incentivo aos estudos sempre foi o pilar de sua casa. O divisor de águas, no entanto, veio quando as páginas dos livros começaram a fazer sentido prático em sua juventude, transformando a teoria em uma visão crítica do mundo.

"A literatura ajudou a formar quem eu sou, o meu caráter. A minha arma é a literatura! Foi essa a opção que eu fiz: a intelectualidade, a argumentação, a não violência... isso é fruto diretamente da literatura", afirma o professor.

A Descoberta da Palavra e a Identidade Nacional

O contato com obras como "Capitães de Areia", de Jorge Amado, o primeiro livro que leu por conta própria, abriu caminho para uma investigação profunda sobre a identidade brasileira. A curiosidade o levou longe: aos 18 anos, Sérgio viajou até Santa Catarina apenas para ver de perto a obra de Cruz e Sousa, um dos maiores nomes do simbolismo no Brasil e um homem negro que usava a poesia para traduzir o sentimento amargo de um país recém-saído da escravidão oficial.

Para o professor, a literatura b rasileira carrega uma musicalidade inerente e uma força de contestação, desde os modernistas da Semana de 22 até as letras existencialistas de Cazuza nas décadas seguintes.

Essa efervescência cultural, no entanto, precisa de espaços físicos para florescer. Sérgio relembra com saudosismo as décadas de 1980 e 1990, quando a Biblioteca Mário de Andrade, no centro da capital paulista, era um verdadeiro caldeirão de ideias. Lá, anarquistas, poetas como o icônico sambista e biólogo Paulo Vanzolini e cientistas se reuniram em saraus e aulas públicas para debater a cidade.

Hoje, o professor enxerga o espaço de forma mais crítica, apontando uma mudança de comportamento impulsionada por um modelo de sociedade mais individualista.

"O neoliberalismo, tudo o que ele não quer é que as pessoas se reúnam para pensar o país, pensar o mundo. A ideia de público vai no sentido oposto do neoliberalismo,

que é o sujeito privado: o pronome 'eu'. A biblioteca não é 'eu', a biblioteca é 'nós'", reflete.

Da Teoria para as Ruas: A Defesa das Cotas

E é apostando na força desse coletivo que o professor convoca a sociedade para transformar a indignação em ação. Sérgio destacou uma mobilização fundamental encabeçada pelos movimentos sociais neste mês de março, focada na reparação histórica e na garantia de direitos:

Dia 31 de março (Anhembi): Uma grande plenária com o objetivo de pressionar o Governo Federal a transformar a Lei de Cotas em uma política de Estado permanente, garantindo que os espaços de poder, universidades e postos de trabalho reflitam, de fato, a diversidade da população brasileira.

Como a própria história de Sérgio Pereira nos ensina, a leitura do mundo antecede a leitura da palavra. E, para ele, o próximo capítulo dessa história precisa ser escrito nas ruas, de forma coletiva.

A Central de Notícias da Rádio Tucuruvi é uma iniciativa do Projeto “Tropicalismo e a música brasileira!”. Este projeto foi realizado com o apoio da 9ª Edição do Programa Municipal de Fomento ao Serviço de Radiodifusão Comunitária Para a Cidade de São Paulo.

 
 
 

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